O Pedido Que a Cidade Fez a Jesus em Mateus 8:34: “Vá Embora!”

Pregação sobre Mateus 8:34

Texto base, ACF:

“E eis que toda aquela cidade saiu ao encontro de Jesus e, vendo-o, rogaram-lhe que se retirasse dos seus termos.”


Existe uma cena na Bíblia que costuma passar despercebida porque ela não termina bem. Jesus acabou de fazer um dos milagres mais espantosos do seu ministério.

Um homem dominado por uma legião de demônios, um homem que morava entre os túmulos, que ninguém conseguia prender nem mesmo com correntes, esse homem foi libertado com uma única palavra de Cristo. E o que a cidade faz diante disso? Não é festa. Não é louvor. Não é conversão em massa.

A cidade inteira sai ao encontro de Jesus e pede, com todas as letras, que ele vá embora.

Essa é a pergunta que quero deixar plantada em nós hoje: é possível estar diante do poder de Deus, ver a prova concreta da sua bondade, e ainda assim preferir que ele se retire? E se a resposta for sim, o que isso revela sobre o nosso próprio coração?


Contexto Exegético

Estamos em Mateus 8:28 a 34. Jesus atravessa o mar da Galileia depois de acalmar a tempestade (8:23 a 27) e chega à região dos gadarenos, território gentio, do outro lado do lago. Ali dois endemoninhados vivem entre os sepulcros, tão violentos que ninguém ousava passar por aquele caminho.

Os demônios reconhecem Jesus imediatamente. Eles gritam: “Que temos nós contigo, Jesus, Filho de Deus? Vieste aqui atormentar-nos antes de tempo?” (v. 29). E fazem um pedido, usando o verbo grego parakaléo, “rogar”, “suplicar”. Pedem para serem enviados para uma manada de porcos que pastava ali perto.

Jesus concede. Os demônios entram nos porcos, e a manada inteira se precipita penhasco abaixo, direto para o mar, e morre afogada.

Os que cuidavam dos porcos fogem para a cidade e contam tudo, inclusive o que havia acontecido com os endemoninhados. E então vem o versículo que estamos comentando hoje. Toda a cidade sai ao encontro de Jesus. E o verbo usado para o pedido da cidade é exatamente o mesmo verbo usado para o pedido dos demônios: parakaléo. “Rogaram lhe que se retirasse dos seus termos.”

Esse detalhe gramatical não é acidental. Mateus está fazendo um contraste deliberado.


O Mesmo Verbo, o Mesmo Pedido

Os demônios rogam a Jesus. A cidade roga a Jesus. É o mesmo verbo, a mesma estrutura de súplica. Mas o conteúdo do pedido é ainda mais grave no segundo caso. Os demônios pediram para ir para os porcos, um pedido menor, dentro da própria derrota que estavam sofrendo. A cidade pede algo maior: que Jesus se retire completamente dos seus termos, da sua região, das suas fronteiras.

A expressão grega é metabê apo tôn horíon autôn, “que ele mudasse de lugar, partindo das fronteiras deles”. Horion é justamente a palavra para limite, território, fronteira. A cidade está dizendo, em outras palavras: “Fique do seu lado da fronteira. Não queremos você aqui.”

Isso é impressionante quando comparamos as duas cenas. Os demônios reconheceram quem Jesus era e temeram. A cidade viu o resultado do poder de Jesus, um homem atormentado agora eram livre, vestido e em perfeito juízo (isso Marcos e Lucas registram com mais detalhe), e ainda assim reagiu com o mesmo tipo de rejeição, ou seja, desejou o afastamento de Jesus.

Em certo sentido, a cidade se comportou pior que os demônios, porque os demônios ao menos sabiam que estavam diante do Filho de Deus e agiram por temor da sua autoridade. A cidade viu a bondade de Deus em ação e a recusou por outro motivo, que precisamos identificar.


O Motivo Escondido: Porcos e Presença

Por que a cidade quis que Jesus fosse embora? O texto não declara o motivo de forma explícita, mas o contexto imediato deixa isso claro.

A manada de porcos, provavelmente uma fonte de sustento econômico considerável para aquela região, foi destruída. Jesus tinha acabado de libertar um homem, restaurar uma vida, devolver um filho à sua comunidade. E a reação da cidade foi calcular o prejuízo material.

Aqui está algo que toca profundamente a nossa condição. A cidade não negou o milagre. Ela não disse que Jesus era um impostor. Ela reconheceu o poder dele e, exatamente por isso, temeu o que mais aquele poder poderia custar. Preferiram os porcos íntegros e o homem endemoninhado a arriscar mais presença de Jesus e talvez perder mais coisas.

Esse é um padrão que se repete até hoje. Muitas vezes não rejeitamos a Cristo porque duvidamos do seu poder. Rejeitamos porque tememos o preço da sua presença.

Sabemos que, se ele realmente entrar em certas áreas da nossa vida, algo vai precisar morrer, algum hábito, algum apego, alguma fonte de conforto ou de lucro que não resiste à luz do evangelho. E, diante desse risco, muitos preferem manter Jesus do outro lado da fronteira.

Perto o suficiente para admirar. Longe o suficiente para não incomodar.


Um Eco do Sinai

Esse episódio tem um paralelo importante no Antigo Testamento, em Êxodo 20:18 e 19. Quando o povo de Israel viu os trovões, os relâmpagos e a fumaça no monte Sinai, e ouviu a voz de Deus, eles tremeram e disseram a Moisés: “Fala tu conosco, e ouviremos; mas não fale Deus conosco, para que não morramos.”

O Pedido Que a Cidade Fez a Jesus em Mateus 8:34 Vá Embora

Ali também temos um povo que reconhece a realidade e o poder da presença de Deus, e que, em vez de se aproximar, pede distância. Israel preferiu um intermediário a arriscar o encontro direto. Os gadarenos preferiram a ausência de Jesus a arriscar mais perdas.

A diferença fundamental é que, em Cristo, Deus não se apresenta com trovão e fumaça, mas com um homem restaurado, vestido, em perfeito juízo, sentado aos pés de Jesus.

A revelação de Deus em Cristo não é menos poderosa que a do Sinai, é infinitamente mais próxima e mais gentil. E, ainda assim, o coração humano pode reagir da mesma forma antiga: com medo, e pedindo distância.

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O Contraste que Mateus Não Registra, Mas Que Ilumina o Texto

Os relatos paralelos de Marcos e Lucas (Marcos 5:18 a 20 e Lucas 8:38 e 39) acrescentam um detalhe precioso. Enquanto a cidade pede que Jesus vá embora, o homem que foi libertado pede o contrário: ele roga a Jesus, usando o mesmo verbo parakaléo mais uma vez, para poder ir com ele, para permanecer na sua presença.

Temos ali três respostas diante do mesmo Cristo. Os demônios pedem para ir para os porcos, uma concessão menor dentro da derrota. A cidade pede que Jesus se retire por completo. E o homem liberto pede para nunca mais se afastar dele.

Essa é, no fundo, a decisão diante da qual cada um de nós está posto. Aquele que provou a libertação de Cristo não quer distância, quer proximidade. Quem só viu o custo, sem provar a graça, prefere que Jesus fique do outro lado da fronteira.


Reflexão

Irmãos, é possível estar numa igreja, ouvir a Palavra, até testemunhar o que Deus faz na vida de outras pessoas, e ainda assim, no fundo do coração, estar pedindo a Jesus que não avance além de certos limites.

“Pode agir na minha vida espiritual, mas não nas minhas finanças.” “Pode falar sobre o meu caráter, mas não sobre o meu casamento.” “Pode me consolar, mas não me confrontar.”

Esse é exatamente o pedido dos gadarenos, atualizado para a nossa realidade. E o texto nos convida a examinar se, de alguma forma, estamos repetindo essa mesma súplica, talvez sem perceber.

A boa notícia é que o evangelho não fica ofendido com as nossas fronteiras, mas também não se contenta com elas. Jesus, segundo o relato, atendeu ao pedido da cidade e se retirou (isso o próprio Mateus registra no início do capítulo 9). Ele respeita a liberdade humana até o ponto de aceitar a rejeição.

Mas ele deixou algo para trás: o homem libertado, agora testemunha viva daquilo que Cristo pode fazer. Marcos nos conta que esse homem se tornou o primeiro pregador da região de Decápolis, contando a todos o que o Senhor tinha feito por ele.

Ou seja, mesmo quando a cidade fechou a porta, Deus deixou uma semente plantada dentro daquele mesmo território.


Conclusão

Voltamos então à pergunta do início: é possível estar diante do poder de Deus e ainda pedir que ele se retire? A resposta triste é que sim, e a história de Mateus 8 prova isso. Mas a pergunta mais importante para nós hoje não é sobre os gadarenos. É sobre nós.

Que fronteiras estamos, ainda hoje, pedindo a Jesus que respeite? Que áreas da nossa vida preferimos manter do lado de fora dos seus termos, com medo do que ele pode custar remover?

O convite do evangelho não é para calcular o preço da presença de Cristo e recuar. É para fazer como o homem liberto, que rogou para permanecer perto daquele que o libertou. Que a nossa resposta hoje não seja a da cidade que pediu distância, mas a do homem que pediu para ficar.

FAQ – Perguntas Frequentes

1. Por que o verbo grego “parakaléo” é importante nesse texto?
Porque é o mesmo verbo usado tanto pelos demônios (pedindo para ir aos porcos) quanto pela cidade (pedindo que Jesus se retire). Mateus usa essa repetição para fazer um contraste deliberado entre as duas reações.

2. Qual foi o motivo real da rejeição da cidade a Jesus?
O texto não declara isso explicitamente, mas o contexto indica que foi a perda econômica da manada de porcos. A cidade temeu o custo material da presença de Jesus, não duvidou do seu poder.

3. Como esse episódio se relaciona com o Sinai em Êxodo 20?
Assim como Israel pediu que Deus não falasse diretamente com eles por medo, os gadarenos pediram distância de Jesus. Ambos os povos reconheceram o poder divino, mas preferiram mantê-lo à distância.

4. O que os relatos de Marcos e Lucas acrescentam a essa história?
Eles mostram que o homem libertado pediu (com o mesmo verbo “parakaléo”) para ir com Jesus, formando um contraste com o pedido da cidade. Ele se tornou depois o primeiro pregador da região de Decápolis.

5. Jesus atendeu ao pedido da cidade?
Sim, segundo o relato em Mateus 9, Jesus se retirou da região, respeitando a liberdade humana mesmo diante da rejeição. Mas deixou o homem liberto como testemunha viva do que havia feito.

7. Qual é a aplicação principal para os ouvintes hoje?
O convite é para examinar quais “fronteiras” ainda impomos a Jesus em áreas específicas da vida. A resposta ideal não é pedir distância como a cidade, mas buscar proximidade como o homem liberto.