Jesus Cumpriu a Lei ou a Contradisse? Um Estudo Profundo de Mateus 5:17 e João 8

A relação entre a Lei de Moisés e o ministério de Jesus Cristo é um dos temas mais fascinantes e, por vezes, complexos da teologia bíblica. Muitos leitores da Bíblia, ao se depararem com as palavras de Jesus no Sermão da Montanha e, posteriormente, com Sua atitude diante da mulher apanhada em adultério, sentem um aparente conflito.

Afinal, Jesus cumpriu a lei como afirmou em Mateus 5:17, ou Ele a ignorou em João 8 ao não permitir o apedrejamento?

Neste estudo bíblico exaustivo, mergulharemos nas Escrituras para compreender que não há contradição, mas sim uma harmonia perfeita e profunda. Veremos como Jesus não apenas observou preceitos, mas deu pleno sentido a cada vírgula da revelação divina, elevando a justiça a um patamar que o legalismo humano jamais poderia alcançar.


1. O Alicerce Teológico: Mateus 5:17-19 e o Significado de “Cumprir”

Para entendermos se Jesus cumpriu a lei, precisamos primeiro analisar Sua própria declaração programática no início de Seu ministério público. Em Mateus 5:17, Ele afirma:

“Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas; não vim para revogar, mas para cumprir”.

O que significa “Cumprir” (Pleroo)?

No grego original, a palavra traduzida como “cumprir” é pleroo. Ela carrega o sentido de “encher até a borda”, “completar”, “levar à plenitude” ou “dar o significado pleno”. Jesus não estava dizendo apenas que Ele seria um observador obediente das regras, mas que Ele era o objetivo final para o qual toda a Lei e os Profetas apontavam.

Os fariseus e escribas viam a Lei como um sistema de regras externas. Jesus, porém, apresenta a Lei como uma revelação do caráter santo de Deus. Quando Jesus cumpriu a lei, Ele o fez de três maneiras principais:

  1. Obediência Dogmática e Moral: Ele viveu uma vida sem pecado, cumprindo perfeitamente todos os requisitos morais de Deus.
  2. Cumprimento Profético: Ele realizou em Sua vida, morte e ressurreição todas as tipologias, sombras e profecias messiânicas contidas no Antigo Testamento.
  3. Exposição Interpretativa: Ele revelou o verdadeiro “espírito da Lei”, que havia sido enterrado sob camadas de tradições humanas e interpretações legalistas.

A Permanência da Palavra (Mateus 5:18-19)

Jesus reforça a autoridade das Escrituras ao dizer que “nem um iota ou um til” passaria da Lei até que tudo se cumprisse. O “iota” (yod) é a menor letra do alfabeto hebraico, e o “til” é um pequeno traço que diferencia letras semelhantes.

Com essa hipérbole, Cristo estabelece que Deus leva a sério cada detalhe de Sua revelação. Portanto, qualquer interpretação que sugira que Jesus veio “jogar fora” o Antigo Testamento falha em compreender Sua missão.


2. O Contexto Histórico e a Interpretação Farisaica

Jesus Cumpriu a Lei ou a Contradisse? Um Estudo Profundo de Mateus 5:17 e João 8

Para compreender por que o cumprimento de Jesus parece, aos olhos desatentos, uma quebra da Lei, precisamos entender o ambiente religioso da época. O público de Jesus era composto por judeus que respiravam a Torá. No entanto, a liderança religiosa da época havia transformado a Lei em um fardo insuportável através do que chamamos de “cerca em volta da Lei” (as tradições orais).

Os fariseus focavam na conformidade externa. Se a Lei dizia “não matarás”, eles acreditavam que, contanto que não houvesse um cadáver, o mandamento estava guardado. Jesus, no entanto, radicaliza o entendimento: Ele ensina que o ódio no coração já é uma violação do sexto mandamento.

Dessa forma, quando afirmamos que Jesus cumpriu a lei, estamos dizendo que Ele resgatou a intenção divina original. A Lei não foi dada para ser um fim em si mesma, mas para revelar o pecado e conduzir o homem à necessidade de redenção e santidade interior.


3. O Dilema de João 8:1-11 – Jesus Violou a Lei de Moisés?

Chegamos agora ao ponto de tensão mencionado por muitos estudiosos: o episódio da mulher surpreendida em adultério. Segundo a Lei de Moisés (Levítico 20:10 e Deuteronômio 22:22), o adultério era punível com a morte para ambos os envolvidos. Se Jesus cumpriu a lei, por que Ele não autorizou o apedrejamento?

A Armadilha Jurídica

Os escribas e fariseus não estavam interessados na justiça ou na santidade da mulher; eles queriam colocar Jesus em uma sinuca de bico teológica.

  • Se Jesus dissesse “Apedrejem-na”, Ele perderia Sua reputação de misericórdia e poderia entrar em conflito com as leis romanas, que proibiam os judeus de executar a pena de morte sem autorização imperial.
  • Se Jesus dissesse “Não a apedrejem”, eles O acusariam formalmente de contradizer a Lei de Moisés e, portanto, de ser um falso profeta.

Como Jesus Cumpriu a Lei neste Episódio?

Jesus não ignorou a Lei; Ele agiu como o Juiz Supremo que conhece a aplicação perfeita da jurisprudência divina. Há vários aspectos legais aqui que muitas vezes passam despercebidos:

  1. A Ausência do Cúmplice: A Lei exigia que ambos, o homem e a mulher, fossem punidos. Onde estava o homem? Ao trazerem apenas a mulher, os acusadores já estavam manipulando a Lei para fins políticos, o que é uma violação da justiça bíblica.
  2. A Qualificação das Testemunhas: De acordo com Deuteronômio 17:7, as testemunhas do crime deveriam ser as primeiras a atirar as pedras. Jesus, ao dizer “Aquele que dentre vós está sem pecado seja o primeiro que atire uma pedra contra ela”, Ele não estava abolindo a pena de morte ali, mas estava desqualificando as testemunhas. Na jurisprudência bíblica, uma testemunha maliciosa ou pecaminosa no mesmo âmbito não tinha autoridade para executar o julgamento.
  3. O Coração da Lei: Ao escrever na terra (um ato que remete a Jeremias 17:13, onde se diz que aqueles que abandonam o Senhor serão escritos na terra), Jesus expõe a hipocrisia dos juízes. Jesus cumpriu a lei ao exigir que os executores da justiça fossem, eles mesmos, submetidos ao padrão de santidade de Deus.

Portanto, em João 8, Jesus não contradiz Mateus 5:17. Ele cumpre o propósito redentor da Lei, que é levar o pecador ao arrependimento. Ao dizer “Nem eu te condeno; vai-te e não peques mais”, Jesus exerce Sua autoridade divina de perdoar pecados (cumprindo a função sacerdotal) e mantém o padrão moral da Lei ao ordenar que ela abandone a vida de pecado.


4. A Lei como “Aio” e Cristo como o Fim da Lei

Para aprofundarmos este estudo bíblico, precisamos recorrer às cartas paulinas, que sistematizam como Jesus cumpriu a lei em nosso lugar.

Gálatas 3:24 – O Tutor (Aio)

Paulo descreve a Lei como um “aio” (ou tutor). Na Grécia antiga, o aio era o escravo encarregado de levar a criança até o mestre. A Lei nunca teve o poder de salvar; sua função era apontar o erro, mostrar o padrão de Deus e nos “escoltar” até Cristo.

Uma vez que chegamos a Cristo, não estamos mais sob o tutor, mas sob a graça. Isso não significa que a moral de Deus mudou, mas que o regime legalista foi substituído pela vida no Espírito.

Romanos 10:4 – O Fim da Lei

“Porque o fim da lei é Cristo, para justiça de todo aquele que crê”.

A palavra “fim” (telos) aqui não significa “extinção”, mas “objetivo”, “meta” ou “consumação”. Imagine uma maratona: a linha de chegada é o “fim” da corrida. A corrida não foi inútil, mas ela encontrou seu propósito final na linha de chegada.

Cristo é a linha de chegada da Lei. Toda a estrutura sacrificial, o tabernáculo e as leis cerimoniais encontraram seu descanso e cumprimento final nEle.


5. Distinções Necessárias: Lei Moral, Civil e Cerimonial

Muitas vezes, a confusão sobre como Jesus cumpriu a lei surge porque não distinguimos as categorias das leis do Antigo Testamento:

CategoriaDescriçãoStatus após Cristo
Lei MoralReflete o caráter de Deus (Ex: 10 Mandamentos).Permanente. Jesus a aprofundou e a cumpriu perfeitamente.
Lei CerimonialSacrifícios, rituais de pureza, festas.Cumprida em Cristo. Ele é o Cordeiro Pascal, o Templo e o Sumo Sacerdote.
Lei CivilRegras para a governança da nação teocrática de Israel.Seus princípios de justiça permanecem, mas a aplicação teocrática cessou.

Quando Jesus lida com a mulher adúltera, Ele está lidando com uma aplicação da lei civil e moral. Ele não revoga a gravidade do adultério (Lei Moral), mas como o Messias que traz a Nova Aliança, Ele inaugura um tempo onde a misericórdia triunfa sobre o juízo meramente punitivo da antiga teocracia, visando a restauração do indivíduo.


6. Aplicações Práticas para o Cristão Contemporâneo

Entender que Jesus cumpriu a lei não é apenas um exercício intelectual; é vital para a nossa caminhada de fé. Como devemos viver à luz dessa verdade?

Tábuas de pedra com a Lei e uma cora de espinhos ao lado - Jesus Cumpriu a Lei ou a Contradisse? Um Estudo Profundo de Mateus 5:17 e João 8

A. Fuja do Legalismo e da Licenciosidade

O legalismo tenta ganhar o favor de Deus através de regras. A licenciosidade usa a graça como desculpa para pecar. O caminho de Cristo é a “Lei da Liberdade”. Obedecemos a Deus não para sermos salvos, mas porque fomos salvos e amamos Aquele que nos resgatou. Se Jesus cumpriu a lei por nós, nossa dívida foi paga, e agora servimos por gratidão, não por medo.

B. O Padrão de Santidade é Elevado, não Reduzido

Jesus disse que, se nossa justiça não exceder a dos escribas e fariseus, não entraremos no Reino dos Céus (Mateus 5:20). Isso significa que, na Nova Aliança, a obediência começa no coração. Não basta não roubar; devemos ser generosos. Não basta não adulterar; devemos guardar nossos olhos e pensamentos. O Espírito Santo nos capacita a viver o que a Lei apenas exigia.

C. Valorize as Escrituras como um Todo

Muitos cristãos ignoram o Antigo Testamento, achando-o irrelevante. No entanto, se Jesus cumpriu a lei, o Antigo Testamento é o dicionário que define os termos do Novo. Para entender o sacrifício de Jesus, você precisa entender o Levítico. Para entender a soberania de Cristo, você precisa entender os Profetas. A Bíblia é uma unidade orgânica.


7. Aplicações Práticas: Como Viver esse Ensinamento

  1. Examine suas motivações: Você busca a Deus por obrigação ou por amor? Lembre-se que Cristo já cumpriu as exigências da Lei por você. Sua obediência deve ser um fruto do Espírito, uma resposta de gratidão.
  2. Pratique a misericórdia com discernimento: Assim como Jesus em João 8, não ignore o pecado, mas busque a restauração do pecador. A lei sem amor é legalismo; o amor sem lei é libertinagem. O equilíbrio cristão é a “verdade em amor”.
  3. Estude o Antigo Testamento à luz de Cristo: Sempre que ler uma lei ou profecia, pergunte-se: “Como Jesus cumpre isso?”. Isso abrirá seus olhos para a beleza e a profundidade da obra redentora.

8. Conclusão: A Harmonia da Cruz

Concluímos que não há contradição entre Mateus 5 e João 8. Em Mateus, Jesus afirma a autoridade divina da Palavra. Em João, Ele demonstra a autoridade divina de aplicar essa Palavra com a misericórdia que a própria Lei prefigurava.

Jesus é o único que poderia ter atirado a primeira pedra na mulher adúltera, pois Ele era o único sem pecado. No entanto, Ele escolheu não o fazer. Por quê? Porque Ele mesmo seria “apedrejado” pelo juízo de Deus na cruz em nosso lugar.

No Calvário, a justiça de Deus (Lei) e a misericórdia de Deus (Graça) se beijaram. A Lei foi plenamente satisfeita porque o castigo foi pago, e a Graça foi plenamente liberada porque o culpado foi perdoado.

Jesus cumpriu a lei para que nós pudéssemos viver na liberdade dos filhos de Deus. Que este entendimento transforme sua leitura bíblica e sua vida devocional, levando-o a uma adoração mais profunda por Aquele que é o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim.

A Lei de Deus é perfeita, mas nós somos imperfeitos. Por isso, a Lei, que era para vida, tornou-se para nós sentença de morte. Mas louvado seja Deus por Jesus Cristo! Ele desceu ao nosso nível, vestiu nossa pele, sujeitou-se à Lei e a venceu em todos os pontos.

Quando olhamos para Mateus 5 e João 8, não vemos um Deus confuso, mas um Salvador coerente, que ama a santidade o suficiente para morrer por ela e ama o pecador o suficiente para perdoá-lo. Viva hoje na segurança de que, em Cristo, a Lei não é mais sua condenação, mas o espelho que reflete a beleza do caráter do seu Senhor.


Perguntas Frequentes: Jesus e o Cumprimento da Lei

Abaixo, respondemos às principais questões sobre como Jesus cumpriu a lei e como isso se aplica à nossa vida cristã prática.

1. Se Jesus disse que veio cumprir a Lei, por que Ele não permitiu o apedrejamento em João 8?

Jesus não anulou a Lei, mas a aplicou com a autoridade de Juiz Supremo. Para uma execução ser legal perante a Lei de Moisés, as testemunhas precisariam ser idôneas e o cúmplice do ato também deveria estar presente. Ao confrontar o pecado dos acusadores, Jesus desqualificou as testemunhas maliciosas. Ele cumpriu o espírito da Lei, que visa a justiça e o arrependimento, e não apenas a punição ritualística.

2. O que Jesus quis dizer exatamente com “cumprir” (Mateus 5:17)?

A palavra grega é pleroo, que significa preencher totalmente ou levar à plenitude. Jesus cumpriu a lei ao obedecê-la perfeitamente em Sua vida, ao realizar todas as profecias que a Lei apontava e ao revelar o significado profundo dos mandamentos, que os fariseus haviam reduzido a meras regras externas.

3. Se Jesus cumpriu a Lei, nós ainda precisamos seguir os Dez Mandamentos?

Sim, no sentido moral. A teologia cristã geralmente divide a Lei em: Moral, Cerimonial e Civil. Enquanto as leis cerimoniais (sacrifícios) e civis (governo de Israel) foram cumpridas e cessadas em Cristo, a Lei Moral reflete o caráter eterno de Deus. Sob a Graça, não obedecemos para ser salvos, mas porque somos salvos e desejamos refletir a santidade de Deus.

4. Por que Jesus era tão crítico em relação aos fariseus, se eles eram os que mais tentavam seguir a Lei?

Jesus não criticava a Lei, mas o legalismo. Os fariseus focavam na observância externa para autopromoção espiritual, enquanto seus corações estavam cheios de orgulho e falta de misericórdia. Jesus demonstrou que a verdadeira justiça deve começar no interior e transbordar em amor ao próximo, algo que o legalismo nunca consegue produzir.

5. Como Jesus pode ser o “fim da lei” segundo Romanos 10:4?

O termo “fim” (telos) aqui significa objetivo, meta ou consumação. Isso quer dizer que toda a Lei apontava para Cristo. Ele é o destino final de todas as regras e rituais do Antigo Testamento. Uma vez que o cristão está unido a Cristo pela fé, ele alcança a justiça que a Lei exigia, mas que ninguém conseguia obter por esforço próprio.

6. O cristão tem liberdade para pecar, já que não está “debaixo da lei”?

De forma alguma. O apóstolo Paulo responde a isso em Romanos 6. Estar “debaixo da graça” significa ter o poder do Espírito Santo para não pecar. A graça não é uma licença para a imoralidade, mas uma capacitação divina para vivermos um padrão de santidade ainda mais alto do que a Lei de Moisés exigia, baseada no amor a Deus.

7. Jesus mudou alguma lei durante o Seu ministério?

Jesus não mudou a essência da vontade de Deus, mas elevou a interpretação. No Sermão da Montanha, Ele usa a fórmula: “Ouvistes o que foi dito… Eu, porém, vos digo”. Ele não estava corrigindo Moisés, mas corrigindo as interpretações superficiais da época, mostrando que o adultério e o homicídio começam na intenção do coração, e não apenas no ato físico.